Tag: Poético

Aos nossos filhos

Aos nossos filhos

Destaque, Poesia, Poético
Não direi de ti Que te amei um minuto Como uma eternidade Não direi de ti Que te ganhei, companheira Num relâmpago E perdi num temporal Não direi que não quis ficar Que partiu como louca Enquanto te chamava Não direi que teve medo de amar Um parceiro incógnito Imprevisível de tua própria loucura Não direi que não tivemos paciência De percorrermos juntos Os desenhos de nossas mãos Que mostravam nossa própria estrada Não direi calando teu nome O tempo pouco e louco Que juntos vivemos Não direi para não perder Nossa história Como me perdia menino Ouvindo um conto de fadas Por Bosco Martins  Assista ao especial “Poético”, uma viagem literária pelas poéticas modernistas sob o comando do escritor e jornalista Bosco Martins. Com recortes que vão de Eli
“O Guardador de Rebanhos” e “Para ser grande”

“O Guardador de Rebanhos” e “Para ser grande”

Destaque, Poesia, Poético
I - Eu Nunca Guardei Rebanhos Eu nunca guardei rebanhos, Mas é como se os guardasse. Minha alma é como um pastor, Conhece o vento e o sol E anda pela mão das Estações A seguir e a olhar. Toda a paz da Natureza sem gente Vem sentar-se a meu lado. Mas eu fico triste como um pôr de sol Para a nossa imaginação, Quando esfria no fundo da planície E se sente a noite entrada Como uma borboleta pela janela. Mas a minha tristeza é sossego Porque é natural e justa E é o que deve estar na alma Quando já pensa que existe E as mãos colhem flores sem ela dar por isso. Como um ruído de chocalhos Para além da curva da estrada, Os meus pensamentos são contentes. Só tenho pena de saber que eles são contentes, Porque, se o não soubesse, Em vez de serem contentes e tristes, Seriam
Livro Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa

Livro Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa

Destaque, Poesia, Poético
"Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma… Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio… Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar — o tempo
Acordar

Acordar

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Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras, Acordar da Rua do Ouro, Acordar do Rocio, às portas dos cafés, Acordar E no meio de tudo a gare, que nunca dorme, Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono. Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar, Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo. À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma, E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo. Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne, Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha, Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom, São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugad
Safena

Safena

Destaque, Poético
Sabe o que é um coração amar ao máximo de seu sangue? Bater até o auge de seu baticum? Não, você não sabe de jeito nenhum. Agora chega. Reforma no meu peito! Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas aproximem-se! Rolos, rolas, tinta, tijolo comecem a obra! Por favor, mestre de Horas Tempo, meu fiel carpinteiro comece você primeiro passando verniz nos móveis e vamos tudo de novo do novo começo. Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora apertem os cintos Adeus ao sinto muito do meu jeito Pitos ventres pernas aticem as velas que lá vou de novo na solteirice exposta ao mar da mulatice à honra das novas uniões Vassouras, rodos, águas, flanelas e cercas Protejam as beiras lustrem as superfícies aspirem os tapetes Vai começar o banquete de amar de novo Gato
Epígrafe a Manoel de Barros

Epígrafe a Manoel de Barros

Destaque, Manoel de Barros, Poético
Meu caro poeta... estejai tranquilo. O Pantanal, com seus corixos e mistérios surge através de suas palavras, caleidoscópio da abóbada celeste na moldura de minha janela. Estejai tranquilo, meu caro poeta. O sistema solar esconde os equinócios, guaches, pincéis, clavicórdios, num par dourado de olhos amarelos devorados por seus poemas. Meu caro poeta, amo estes morros, esses guavirais. Amo andar sobre esse tapete mágico de cabeça pra baixo no imponderável. Amo o íntimo de sua poesia, da mesma maneira que amas o rio Paraguai, o cerrado, e tua infância em Corumbá. Dona Assunção da rua Frei Mariano, fez uma bela goiabada daquelas goiabas. Bernardo, lá do Pantanal, espalhou quinze livros por aquela praça. O neto do seu Jorge e da dona Guiomar fez um g
Devolvam minha Bandeira – a Manuel Bandeira

Devolvam minha Bandeira – a Manuel Bandeira

Destaque, Poético
Quem roubou minha bandeira? Quem roubou o meu Bandeira? Hoje, ao alimentar minh’alma Não encontrei o meu Bandeira Impaciente, quase perdi a calma. Cadê minha bandeira, o Bandeira? Quem roubou minha bandeira? Não a bandeira pedaço de pano Hasteada num pau Não bandeira da corporação Não bandeira do partido Muito menos o distintivo da nação! Devolvam o meu Bandeira, É meu, afinal Que seja por bem Ou então será por mal. Não o bandeira, tamanduá Cuja cauda parece uma bandeirola Nem o cata-vento metálico no alto das torres Muito menos a bandeira ensinada na escola! Quero minha bandeira, o Bandeira. Quem roubou o meu Bandeira? Não a bandeira da expedição Não o estandarte Nem a passeata religiosa Muito menos o glorioso pendão! Exijo o meu Bandeira O B
Poema de finados

Poema de finados

Destaque, Poético
Amanhã que é dia dos mortos Vai ao cemitério. Vai E procura entre as sepulturas A sepultura de meu pai. Leva três rosas bem bonitas. Ajoelha e reza uma oração. Não pelo pai, mas pelo filho: O filho tem mais precisão. O que resta de mim na vida É a amargura do que sofri. Pois nada quero, nada espero. E em verdade estou morto ali. Por Manuel Bandeira Assista também ao programa "Prosa e Segredos, Ontem, Hoje e Sempre, com Bosco Martins", com pós-produção/texto e edição de Allison Ishy e pós-produção/edição de vinhetas e pílulas de Roque Martins, que divulga o Documento Regional – Raridades com o programa Poesia Total I e II, pílula 33, onde o poeta e jornalista Bosco Martins declama poemas de sua autoria e de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Astor Piazzolla, V
Dama Branca

Dama Branca

Destaque, Poético
A Dama Branca que eu encontrei, Faz tantos anos, Na minha vida sem lei nem rei, Sorriu-me em todos os desenganos. Era sorriso de compaixão? Era sorriso de zombaria? Não era mofa nem dó. Senão, Só nas tristezas me sorriria. E a Dama Branca sorriu também A cada júbilo interior. Sorria querendo bem. E todavia não era amor. Era desejo? – Credo! de tísicos? Por história… quem sabe lá?… A Dama tinha caprichos físicos: Era uma estranha vulgívaga. Ela era o gênio da corrupção. Tábua de vícios adulterinos. Tivera amantes: uma porção. Até mulheres. Até meninos. Ao pobre amante que lhe queria, Se lhe furtava sarcástica. Com uns perjura, com outros fria, Com outros má, – A Dama Branca que eu encontrei, Há tantos anos, Na minha vida sem lei nem rei, Sorriu-me to
Poema só para Jaime Ovalle

Poema só para Jaime Ovalle

Destaque, Poético
Quando hoje acordei, ainda fazia escuro (Embora a manhã já estivesse avançada). Chovia. Chovia uma triste chuva de resignação Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite. Então me levantei, Bebi o café que eu mesmo preparei, Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando... - Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei. Por Manuel Bandeira Assista também ao programa "Prosa e Segredos, Ontem, Hoje e Sempre, com Bosco Martins", com pós-produção/texto e edição de Allison Ishy e pós-produção/edição de vinhetas e pílulas de Roque Martins, que divulga o Documento Regional – Raridades com o programa Poesia Total I e II, pílula 31, onde o poeta e jornalista Bosco Martins declama poemas de sua autoria e de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Ba