c ectado

Prática, concisa é a resenha diária de Bosco Martins. Em poucos minutos você já sai de casa sabendo o que há de importante.

21 Set 2019

Callie Shell e Barack Obama

Chicago, abril de 2004. A fotógrafa Callie Shell havia acabado de cobrir uma manifestação de campanha do candidato presidencial John Kerry. Mas foi outro político que deixou uma impressão diferente naquele dia: um jovem senador chamado Barack Obama. “O entusiasmo por ele era muito maior do que por Kerry”, lembra Shell. “As pessoas estavam realmente empolgadas para vê-lo.” Ela também ficou impressionada com o bom humor e a maneira como ele trabalhava e falava fazendo com que todos se sentissem confortáveis, fosse o Serviço Secreto, os zeladores ou os sindicalistas.

O editor de Shell na revista Time brincou sobre quantas fotos ela havia tirado naquele dia. Mas Shell sabia que ele estava destinado a algo maior e, nos 15 anos seguintes, tirou milhares de fotos que dizem muito sobre sua ascensão estratosférica à Casa Branca. Poucos fotógrafos tiveram o acesso que Shell teve. Eis o resultado. Uma visão única e histórica sobre os bastidores da era Obama.

Para curtir com calma: Protecionismo e nacionalismo têm dominado os discursos políticos ao redor do mundo nos últimos anos. Mas apesar disso a globalização continua a se expandir de forma acelerada. O cientista político Ian Bremmer e o economista Tyler Cowen se uniram para produzir uma série de três vídeos explicando a globalização e o impacto dela no futuro do trabalho. No primeiro episódio falam do filme Vingadores: Guerrra Infinita, cuja produção foi espalhada por mais de uma dezena de países e cuja estreia liderou a bilheteria em 52 países diferentes. Fora do mercado doméstico, o filme faturou o dobro, tendência que já se vê em uma série de outros filmes. Plateias globais são cada vez mais importantes para os produtores. Isso requer inclusive adaptações, como no caso do Divertida Mente – no Japão, o brócolis não é muito apreciado pelas crianças e acabou sendo trocado por pimentão verde.

O segundo episódio é em torno da destruição criativa, força motriz por trás da inovação, na qual novos produtos e serviços substituem outros mais tradicionais mudando radicalmente alguma indústria. O vídeo exemplifica o processo com a queda da Kodak e da Polaroid, atropeladas pela mudança causada pela migração para fotografia digital e cuja falência levou junto quase 150 mil empregos. No longo prazo essas mudanças tendem a ser positivas e os empregos perdidos acabam sendo repostos por empregos melhores e mais qualificados. Nos anos 1800, por exemplo, mais da metade da população americana trabalhava na agricultura. Com o avanço da tecnologia, hoje são menos de 2% dos americanos trabalhando no setor. Mas no curto prazo essas transições são extremamente dolorosas, pois as pessoas que perdem o emprego não conseguem se recolocar de forma rápida em novas posições. Ajudar a força de trabalho a se qualificar para os novos empregos é um dos principais desafios do mundo hoje.

Quem ganha e quem perde com a globalização é o tema do terceiro episódio. É aqui que começamos a entender a origem de tanto protecionismo e nacionalismo se espalhando pelo mundo. Enquanto nos últimos 20 anos as classes mais baixas de países em desenvolvimento tiveram um significativo crescimento de renda, as classes trabalhadoras de países desenvolvidos viram seus rendimentos estagnarem, enquanto os muito ricos, que se beneficiam da globalização, viram suas fortunas dispararem. Mas no geral a globalização tem feito mais bem do que mal ao mundo, indica a série, ao distribuir melhorias de saúde, aumento da expectativa de vida e mais democracia pelo planeta.

Um pinguim gigante, as comemorações do Dia da Independência no México, um resgate de baleias na Argentina e outras imagens que marcaram a semana no mundo.

Estamos vivendo uma era de ouro da televisão. Séries de TV se tornaram um dos maiores fenômenos da cultura pop do mundo nos últimos anos. O Guardian publicou essa semana um ranking do que considera as 100 melhores séries de TV do século 21. Não surpreende a escolha de Sopranos como número 1. Apesar de ter estreado em 1999, foi a série que abriu portas para um novo formato de narrativa nas séries de TV.

A DIREITA QUE NASCEU EM ISRAEL

Apesar de ter sido uma eleição particularmente apertada, tudo indica que Benjamin Netanyahu deixará o cargo de primeiro-ministro israelense. Está nele faz quase onze anos, desde que seu partido, o Likud, venceu o pleito de fevereiro de 2009. Some-se aí o mandato que já havia exercido entre 1996 e 99 e são 14 anos no comando do país. No dia 20 de julho último, ultrapassou David ben-Gurion, o fundador de Israel, e se tornou a pessoa que mais tempo ocupou o cargo. Ben-Gurion é o grande herói nacional. Não é um feito pequeno, o de Netanyahu. Virou a política de um país que sempre tendeu à esquerda para a direita dura, e ultrapassou em tempo no governo o fundador da nação. Ainda assim, foi um premiê que por boa parte do tempo no comando apelou ao ressentimento dos eleitores como se, junto deles, fosse também um excluído perante uma elite que lhes nega acesso ao poder. Durante seus mandatos, se declarou perseguido pela imprensa e, dos três casos de corrupção dos quais é acusado, dois são ligados a tentar comprar o apoio de veículos noticiosos. Um jornal e o principal site do país. Foi, também, um governo atípico no qual, lentamente, a questão palestina foi deixando as preocupações nacionais. Não porque o problema tenha desaparecido. Mas porque o maior feito de Netanyahu foi como um gesto de ilusionismo. Reinventou a direita, empurrou-a até a beira do extremo sem propriamente chegar lá, e criou um ambiente no qual Israel parou de pensar no futuro.

A questão é simples. Palestinos têm mais filhos do que israelenses judeus. Se a solução dos dois Estados não for adotada e a Palestina não nascer como país independente, em algum ponto deste século algo mudará. Como define a revista britânica The Economistde três, uma. Ou Israel abre mão de Cisjordânia e Gaza, ou deixa de ser um país de maioria judaica, ou desiste de ser a única democracia da região. A demografia é inclemente e, apesar do ilusionismo que dominou o cenário político nos últimos dez anos, o problema não parou de crescer.

Populista. Flexível com a verdade. (De certa feita, os presidentes francês e americano Nicolas Sarkozy e Barack Obama foram flagrados se queixando de suas mentiras e até Donald Trump reclamou.) E uma das inspirações, quando não conselheiro pela experiência, de vários dos líderes da nova direita — incluindo o húngaro Victor Orbán e o brasileiro Jair Bolsonaro. Para compreender o método político de Netanyahu e sua influência mundial, esta é uma história que dividiremos em três partes. Como surgiu uma cultura política tão profundamente democrática num povo que, por algo como dois milênios, não teve nação. Como se estabeleceu, numa cultura em todo ligada à esquerda socialista, a política israelense. E como ela guinou à direita a ponto de sua ideologia fundadora, o sionismo ditado pelo Partido Trabalhista, praticamente desaparecer em uma década e meia.

1.

O shtetl é uma instituição judaica. Não existem mais, no entanto até antes da Segunda Guerra, entre Rússia e boa parte da Europa Oriental, havia shtetelekh espalhados por toda região. Eram pequenas aldeias, em geral pobres, com uma sinagoga no centro e uma comunidade em volta. O musical O Violinista no Telhado (trecho), passado num shtetl russo, é talvez sua representação mais famosa na cultura popular. Os quadros de Marc Chagall, que representam o cotidiano que viveu nestas pequenas vilas, talvez sejam sua representação mais lírica. Foi neles que boa parte dos judeus europeus cultivaram e mantiveram viva sua cultura. Porque foram dizimados, primeiro pelos pogroms iniciados no século 19, depois pelo Holocausto, é que Israel nasceu. E neles, enquanto o Iluminismo criava repúblicas e democracias começando no século 18, um outro tipo de política foi inventada.

É que os shtetelekh, por conta do antissemitismo, eram deixados por conta própria. Tinham de pagar impostos, mas fora isso eram considerados em essência uma estrutura à parte da sociedade com a qual ninguém queria se misturar. Por isso, inventaram uma forma de autogestão: uma democracia comunitária e caótica. Em um shtetl, a população escolhia o rabino para os ritos religiosos, assim como nomeava, durante eleições que ocorriam de tempos em tempos, um corpo administrativo incluindo um chefe do Executivo e uma estrutura judicial. Era inevitável que a população se dividisse em facções, como se fossem partidos políticos. Não são poucas as piadas judaicas, ainda contadas e recontadas, nas quais no centro está a ideia de que, entre dois homens, sempre há, no mínimo, três opiniões. Os debates políticos intermináveis são parte do estereótipo e do humor porque, em cada uma dessas aldeias, viveu-se talvez a experiência europeia mais próxima de uma democracia primitiva, não estruturada. Apesar das discordâncias, afinal, os homens e mulheres que viviam nestas aldeias sabiam que o mundo lá fora lhes era hostil. Esta hostilidade, assim como a pobreza comum, os mantinha unidos. Lá dentro, podiam ter todas as discordâncias possíveis. Mas estavam juntos e se protegiam.

A estrutura política era real. Existia um debate constante entre autoridades religiosas e seculares. Grupos profissionais distintos se organizavam em associações, ou guildas. Instituições de promoção cultural existiam. Um sistema, ainda que primitivo, de poupança e empréstimos comum sempre era estabelecido. E, nas cidades maiores, até um arremedo de Estado de Bem-Estar Social foi criado, com pensões pagas. Esta distribuição de estruturas forçava a necessidade contínua de negociação de espaços, de debates. Por isso mesmo, uma cultura de rigor legal, de aceitação das decisões de juízes, se estabeleceu. Nas mesmas cidades maiores, onde a população de gentios era grande, com frequência ocorria de duas estruturas de governo coexistirem. Os judeus entre os seus, os goyim entre os deles.

O Primeiro Congresso Sionista ocorreu nos últimos dias de agosto de 1897, na Basiléia, Suíça. Um jornalista nascido no lado oriental de Budapeste numa família de comerciantes ricos, Theodor Herzl, o organizou. Escrevendo para o jornal Neue Freie Presse, de Viena, Herzl cobriu chocado o julgamento do capitão Alfred Dreyfus, acusado de vender para os alemães segredos franceses. É um marco da história do antissemitismo moderno, pela injustiça de um caso obviamente manipulado para indicar um homem judeu como bode expiatório. Dreyfus atraiu na nata da intelectualidade francesa defensores como Anatole France e Émile Zola. Mas foi um dos principais marcos traumáticos do crescente antissemitismo europeu de finais do século 19. Com um colega de jornal, Max Nordau, Herzl saiu convencido de que era preciso criar um Estado judeu. Sionismo vem de Sião, um monte em Jerusalém. É também, no misticismo judaico, uma referência ao espírito no centro mais sagrado do Primeiro e Segundo Templos, que marcaram a cidade sagrada. Sionismo era a ideia de erguer, na Terra Santa bíblica, uma terra judaica. Judeu laico, Herzl buscou na religião a simbologia de seu movimento político. Entre as inovações do Congresso, Herzl manteve um antigo hábito dos shtetelekh, o da proporcionalidade. Os delegados — eram 208 — tinham o peso do voto dado pelo tamanho da comunidade que representavam. Era uma lógica que permitia dar voz a todos os grupos.

2.

Israel nasce do Holocausto. A escalada do antissemitismo europeu é um dos fenômenos mais inacreditáveis da virada do século 19 para o 20. O Holocausto nazista não nasce no vácuo — shtetelekh foram dizimados em pogroms, massacres nos quais as populações gentias invadiam as aldeias com objetivo de destruir tudo. E matar. Trata-se de uma palavra russa — quer dizer destruir. Em Odessa, foram cinco os pogroms entre 1821 e 1905. Em Kiev, no mesmo 1905, 150 pessoas foram mortas e o bairro judeu, dizimado. Mesmo após a Revolução de 1917, pogroms continuaram na Rússia. A Solução Final de Hitler não foi acidente. Foi parte de um movimento crescente que a partir de 1942 encontrou seu ápice. O inimigo percebido por Herzl e Nordau não tinha nada de imaginário. A ideia de que um Estado judeu era necessária estava apoiada numa história milenar que só agravava.

A recém-fundada Organização das Nações Unidas compreendia que a Palestina, parte do Império Britânico em franca deterioração, tinha uma população árabe. Por isso que a Resolução 181, tomada em novembro de 1947, determinava a criação de dois Estados. Um árabe, outro judaico, com Jerusalém dividida. No momento determinado em que os britânicos deixariam a terra, os vizinhos árabes de presto a invadiram para evitar a criação de Israel. Não consideraram a hipótese de que as organizações judaicas estavam preparadas para enfrenta-los. Vizinhos como Egito e Transjordânia acreditaram que poderiam anexar o território. A população palestina pobre é que, perante a vitória israelense, perdeu na aposta destes países. Até alguns historiadores israelenses, como Ilan Pappe, consideram que houve um processo de limpeza étnica (Amazon). Não pelo genocídio, mas pela expulsão de um povo de sua terra.

Do Shoah — Holocausto —, que matou seis milhões, ao que os palestinos chamam Nakbah, a expulsão de suas casas de 300 mil pessoas.

Israel nasceu do projeto sionista. Já existiam, desde princípios do século 20, kibutzim na região. Eram fazendas comunitárias de migrantes judeus que viviam num regime inspirado pelo dos shtetelekh e baseado num espírito não comunista, mas socialista. Nascido na atual Turquia, tendo vivido entre Jerusalém e kibutzim desde 1906, David Grün adotou o nome David ben-Gurion inspirado em um dos heróis das revoltas contra os romanos, antes da diáspora. Em 1930, fundou o Mapai, o Partido dos Trabalhadores Israelenses. O mesmo partido, em 1968, se fundiu com outros dois para a criação do HaAvoda, o Partido Trabalhista.

Não se trata apenas de Ben-Gurion. Assim como ele, pelo menos outros três políticos marcaram o trabalhismo israelense. Golda Meira, que governou entre 1969 e 74, o general Yitzhak Rabin que foi premiê por dois períodos, entre 1974 e 77, depois entre 1992 2 95. E Shimon Peres, que governou entre 1984 e 86, depois entre 95 e 96.

Para compreender Israel é preciso se desvencilhar de preconceitos vários. Foi, no nascimento, a experiência mais próxima de um socialismo utópico que jamais existiu. Nunca foi uma ditadura, e os kibutzim funcionaram como comunidades autônomas pequenas onde se buscava a igualdade. A experiência das fazendas comunais não sustentava um país — mas foi um espírito de esquerda que criou Israel e fundou uma sociedade igualitária. Os israelenses mais velhos compreendem Eretz Israel como uma criação do Partido Trabalhista. Mas são, hoje, idosos. O passado da luta pela sobrevivência é apenas história para boa parte da população. Conflitos nos quais realmente se lutou pela sobrevivência, como os de 1948, mas também as guerras dos Seis Dias (em 1967) e do Yom Kippur (1973), são apenas história. Quando os Estados árabes, após uma sequência de derrotas, decidiram parar os ataques, se iniciou o terrorismo de resistência palestina.

Nos anos 1990, já era reconhecido por ambos os lados que o conflito só terminaria com o retorno à resolução da ONU de 1947. Talvez não com as mesmas fronteiras determinadas na época, mas com a criação de um país judaico e outro palestino. Nunca se chegou tão perto de uma decisão.

Nascido de pais do jovem movimento sionista, comandante de batalhão na Guerra de 1948, Yitzhak Rabin comandou o Exército de Israel na vitória da Guerra dos Seis Dias. Se o Partido Trabalhista é o criador de Israel, há esta quadra chave — Ben-Gurion, Golda Meir, Yitzhak Rabin e Shimon Peres — que são os pais fundadores do país. Os EUA não participaram do Acordo de Oslo, no qual Rabin e o histórico líder palestino Yasser Arafat tomaram a decisão de selar a paz. Mas o presidente Bill Clinton chancelou o acordo em um dos momentos mais tocantes da década — nos jardins da Casa Branca, após a assinatura, ele abre seus braços para construir o aperto de mão entre os inimigos de toda vida. (Vídeo.) Só um dos quatro, como era Rabin, tinha autoridade moral para apertar a mão de Arafat e convencer Israel de que a ideia de criar dois países era não só boa como necessária.

O aperto de mão ocorreu em 1993. Rabin foi assassinado por um jovem radical da direita religiosa judaica dois anos depois. (Vídeo.)

O sistema parlamentarista de governo tem suas peculiaridades. As eleições são móveis, e a cada momento em que um premiê sente necessidade de mostrar sua autoridade ao parlamento, por vezes parece uma boa ideia convocar um pleito. Foi o que Shimon Peres, sucessor natural de Rabin, fez em finais de 1995. Todas as pesquisas indicavam uma vitória tranquila para seu Partido Trabalhista. Mas o Hamas promoveu, nos meses anteriores ao voto, uma série de atentados a bomba. Arafat, líder da OLP — Organização pela Libertação da Palestina —, um grupo laico e nacionalista que havia lançado mão do terrorismo nos anos 1970, depusera armas. Foi o momento de ascensão do Hamas, de natureza religiosa. O Likud, liderado por Benjamin Netanyahu, venceu as eleições com o novo crescimento terrorista. E ele não gostava da ideia de um acordo de paz.

3.

Criado em 1973, o Likud nasceu para se contrapor ao Partido Trabalhista. Oferecia uma visão igualmente laica, porém de direita, do sionismo. Foi criado por Menachem Begin, o principal opositor histórico de Ben-Gurion e líder da Irgun, um grupo terrorista que lutou com métodos distintos pela independência de Israel, nos anos 1940. Begin já havia abandonado há muito os métodos terroristas quando foi eleito premiê, em 1977. Desde então, o Likud alternou com os trabalhistas no governo, sugerindo que Israel se tornara uma típica democracia bipartidária

Netanyahu apareceu pela primeira vez para o público israelense em 1982, quando era um hesitante e jovem número dois da embaixada em Washington, durante a invasão do Líbano. Porque tomou uma surra da imprensa americana naqueles anos, se dedicou a aprender a falar em público, construir argumentos, e dominou a técnica como poucos.

Hoje, tornou-se parte de um rito. Donald Trump fala de Netanyahu, seu aliado, a toda hora. Rodrigo Duterte, das Filipinas, se refere a ele. Foi pinçado como aliado pelo italiano Matteo Salvini. É uma referência para Jair Bolsonaro. A nova direita vai a Netanyahu. Nos últimos anos, ao passar por Israel, cada vez se tornou menos comum para líderes políticos estrangeiros cumprimentarem também quem estiver na Autoridade Palestina.

Quando se elegeu pela primeira vez, em 1995, Netanyahu contou com os marqueteiros republicanos — no sentido EUA da palavra — Arthur Finkelstein e George Birnbaum. Esta edição de sábado do Meio já tratou da dupla, ao comentar sobre Orbán. Fazia anos, eles o incentivavam a trazer um tipo de discurso novo à política israelense. “Peres dividirá Jerusalém”, falava Bibi em tom de ameaça durante a campanha após o assassinato de Rabin. “Rabin é pior do que Chamberlain”, afirmou antes da morte do premiê-general. Referia-se a Neville Chamberlain, o primeiro-ministro britânico que fez um acordo com Hitler permitindo aos nazistas anexar parte da Tchecoslováquia, acreditando que parariam ali. “Chamberlain pôs em risco um outro país, Rabin põe em risco sua própria nação.” Convicta de que a retórica agressiva de Bibi Netanyahu, novidade na política local, contribuíra para o assassinato de seu marido, a viúva de Rabin jamais cumprimentou o premiê que se vai.

Israel não tem nove milhões de habitantes. É menor do que São Paulo. Embora parecesse bipartidária, sua política sempre foi como a de um shtetl: fragmentada em inúmeros pequenos partidos, todos com alguma voz garantida pelo princípio da proporcionalidade. Nenhuma democracia tem tanta tradição ou fragmentação. Após 2009, Netanyahu aproveitou-se disto. Promoveu a junção de partidos religiosos que não conseguiam ultrapassar a cláusula de barreira para eleger parlamentares para o Knesset (parlamento), formou assim uma coalizão que, criando uma maioria estreita, deu uma guinada radical à política do país. Os acordos lhe amarraram as mãos: qualquer menção a paz com a Palestina, cessão de territórios ocupados, os critérios mais que básicos do acordo de Oslo, se tornarão impensáveis. Uma política ostensivamente militarizada para neutralizar Cisjordânia e, principalmente, Gaza, destruiu o mínimo de qualidade de vida que existia para palestinos. E neutralizou o terrorismo.

Faz dez anos que Israel finge que o problema não está ali. Quando pressionado, como ocorreu nas últimas duas semanas, Netanyahu lança mão da amizade com Trump e da ameaça que afirma ser representada pelo Irã.

A impressão de que a questão Palestina se tornou menos premente causou um terremoto na política israelense. O HaAvoda praticamente desapareceu. Fundador do país, coisa que só os mais velhos lembram, perdeu a relevância. Desde 1947, sua pauta foi o conflito com a Palestina. Novos partidos surgiram. Primeiro o Kadima, vindo ao centro, que procurou juntar um likudnik como o general Ariel Sharon e um trabalhista histórico como Shimon Peres. Foi o último suspiro da geração que fundou o país e buscou estabilizar a situação encontrando-se no meio. Mais recentemente, o Azul e Branco, ou Kahol Lavan, do general reservista Benny Gantz.

Como Netanyahu, Gantz é da geração dos filhos de sobreviventes ao Holocausto. Mas, diferentemente do Rei Bibi, apelido do atual premiê, Gantz vem de formação militar. O fato de que até militares de direita, como Sharon, se empenham por um acordo de paz não é acidental. É quem conhece o problema.

Bibi Netanyahu não é o exemplo perfeito da nova geração da direita populista. Ele vem, ainda, de um partido tradicional e foi criado dentro desta instituição. Mas é o primeiro líder populista de Israel — flexibiliza a verdade conforme a conveniência. Aproveitou-se da natureza fragmentada das facções políticas para criar uma maioria, o que nenhum outro premiê jamais havia feito. E governou em cima de uma realidade paralela — a de que o problema palestino deixou de existir e de que Jerusalém pode vir a ser capital sem qualquer desgaste ameaçador.

Em verdade, só aumentou a pressão — muitos analistas consideram que há uma explosão chegando.

Ainda: Professor da Universidade de Norte Dame, e um dos maiores especialistas no conflito árabe-israelense, Alan Dowty escreveu um artigo seminal sobre a relação do shtetl com a política israelense. Em PDF.

LUGARES, LUGARES E LUGARES DOMINARAM OS MAIS CLICADOS ESSA SEMANA:

1. Super Interessante: As 15 melhores fotos da natureza de 2019.

2. SteamÁrida, game brasileiro passado no sertão nordestino.

3. BBC: A cidade perdida de Tenea, mencionada em vários mitos e textos históricos gregos.

4. CNN Travel: Lista: 14 viagens românticas.

5. Twitter: Os 20 países mais perigosos para se morar.

Fonte: @Meio

Compartilhe: