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Prática, concisa é a resenha diária de Bosco Martins. Em poucos minutos você já sai de casa sabendo o que há de importante.

17 Ago 2019

Protestos pró-democracia em Hong Kong

Aeroporto Internacional de Hong Kong, dia 12 de agosto. Os relatos ecoaram nas redes sociais: um importante centro da Ásia, por onde milhares passam diariamente, poderia fechar devido aos protestos. Caos. Selfies. Cores. Avisos de voos cancelados. Gás lacrimogêneo. O fotógrafo da AP, Vincent Thian, achou que estava voltando para casa. Só que não. Acabou registrando imagens que refletem muito da cultura e do apuro visual das manifestações em massa que começaram contra uma lei de extradição – agora suspensa – e evoluíram para uma onda de protestos pró-democracia.

A estética própria que se desdobra tanto no campo visual, com cartazes e adereços, quanto no sonoro, com cantos específicos que tomaram as ruas do território nos últimos dois meses, chamaram a atenção do mundo. Há certa padronização no aspecto artístico, sobretudo em relação aos cartazes que servem “para comunicação nas mídias sociais e ajudam a criar um senso de experiência compartilhada e identidade para Hong Kong”. São peças  que lembram mangás e que passaram a ser distribuídos no Telegram. Uma delas mostra uma garota cujo olho foi substituído por uma rosa soltando pétalas, as mãos juntas como se rezasse ou pedisse clemência.

Banido da China por suas críticas ao regime do país, o celebrado artista plástico Ai Weiwei abordará a crise política em Hong Kong no seu próximo trabalho. Será uma  adaptação da ópera de Giácomo Puccini, Turandot, só que no mundo contemporâneo. Weiwei é um dos artistas mais conceituados do planeta. Não só pelo trabalho que entrega. Ele questiona. Ele colabora. Ele transita por universos diferentes. E ele critica o governo chinês. Em 2017, lançou o aclamado documentário Human Flow (Fluxo Humano), filmado em 23 países, sobre refugiados, seus dramas e esperanças.

Mais de 15 trilhões de dólares estão investidos hoje em títulos com juros negativos, ou seja, investidores estão pagando para emprestar seu dinheiro. Isso é mais ou menos um quarto do total do mercado de juros. Juros negativos apareceram pela primeira vez cerca de 20 anos atrás no Japão. Recentemente se espalharam por Suécia, Suíça, Dinamarca e pela zona do Euro. Investidores em busca de taxas melhores foram forçados a procurar outros papéis, aumentando os preços destes, baixando por consequência os custos de se tomar dinheiro emprestado. O resultado é uma série de coisas curiosas, como um banco dinamarquês oferecendo hipotecas a -0.5%, ou seja, pagando para pessoas pegarem dinheiro emprestado e comprar suas casas. Já o banco suíço UBS planeja começar a cobrar para guardar o dinheiro de seus clientes endinheirados. Até onde podem ir as taxas de juros? Em algum momento as pessoas vão preferir guardar dinheiro em papel do que pagar para investir. (Financial Times)

Paul Krugman: “Uma velha frase sobre guerras diz que amadores falam sobre táticas enquanto profissionais estudam logística. Uma frase similar sobre economia seria que amadores falam sobre ações enquanto profissionais estudam o mercado de juros. Recentemente o mercado de juros está contando uma história profundamente pessimista. Quando investidores esperam um boom eles também esperam que o banco central tente moderar o crescimento subindo as taxas de juros de curto prazo para reduzir qualquer risco de inflação. A expectativa de juros de curto prazo mais altos acaba gerando também um aumento dos juros de longo prazo, afinal ninguém quer ficar preso a uma taxa de de juros baixa quando elas estão subindo. Da mesma forma, quando investidores esperam uma queda da economia eles esperam que o banco central corte os juros de curto prazo, com isso eles correm para os títulos de longo prazo que garantem retornos maiores antes que estes também comecem a cair. Hoje as taxas de longo prazo estão abaixo das taxas de curto prazo. Essa inversão da curva tem sido consistentemente, no passado, um sinal precursor de recessões. A guerra comercial entre Trump e China pode estar começando a gerar problemas. Em especial a incerteza sobre ela, está segurando o investimento das empresas. Novas tarifas vão ajudar ou atrapalhar seu negócio? Na dúvida é melhor esperar para saber o que vai acontecer antes de se comprometer com novos investimentos. Agora, a maioria dos economistas não está prevendo recessão ainda. Mas a verdade é que ninguém é muito bom de acertar as viradas da economia, e prever uma recessão antes dos dados deixarem ela óbvia é correr o risco maior de ser chamado de covarde do que coroado como profeta. Mas o mercado de juros, que não se preocupa com esse tipo de coisa, está gritando.” (New York Times)

E por falar… Segundo o Wall Street Journal, o mercado de hipotecas americano ultrapassou agora, no segundo trimestre, o pico histórico que havia atingido em 2008, antes da crise dos subprimes. O total de hipotecas chegou a US$ 9,4 trilhões de dólares, comparando com os US$ 9,2 trihões de 2008. Kevin Drum, na Mother Jones, chama a atenção para o fato de esse número não estar corrigido pela inflação; se corrigido, estaríamos muito longe do pico. Por outro lado, esse valor é pesadamente influenciado pelas taxas de juros do FED, banco central americano. Se subirem, o número pode explodir.

Stephen Hawking estava quase lançando Uma breve história do tempo (Amazon), um dos livros de ciência mais influentes da história moderna, quando escutou de seus editores que cada equação incluída reduziria pela metade as vendas da obra. Implacável, o físico ousou incluir E = mc², mesmo que sua ausência tivesse resultado em mais 10 milhões de cópias vendidas. A história capta a extensão do sentimento que nossa cultura tem por equações. Em 17 equações que mudaram o mundo (Amazon), Ian Stewart explora as conexões vitais entre a matemática e o progresso da humanidade e demonstra como as equações são parte integrante da nossa vida desde a Antiguidade, abrindo novas perspectivas de desenvolvimento – seja com a comunicação global, GPS, lasers, naves espaciais ou a energia atômica. Stewart, um dos mais famosos e respeitados matemáticos da atualidade, vai do teorema de Pitágoras à teoria do caos para revelar como essas equações aparentemente esotéricas são realmente a base de quase tudo que conhecemos e usamos hoje. É uma perspectiva apaixonada, também, sobre o lado ‘humano’ das equações – e da matemática e da ciência, em geral. Stewart conclui, voltando seu olhar para o futuro, que devemos aprender a entendê-las e apreciá-las. “As equações têm um histórico. Elas realmente mudaram o mundo – e vão mudar de novo”. Não temos dúvida disso.

Em 1959, o físico e romancista C. P. Snow lamentou a trágica divergência entre exatas e humanas em sua palestra icônicaThe Two Cultures:

Muitas vezes participei de reuniões com pessoas que, segundo os padrões da cultura tradicional, são altamente educadas e que têm expressado, com grande entusiasmo, sua incredulidade pelo analfabetismo dos cientistas. Uma, ou duas vezes, fui provocado e perguntei quantos deles poderiam descrever a Segunda Lei da Termodinâmica. A resposta foi negativa. No entanto, eu estava perguntando algo que é o equivalente científico de: ‘Você já leu algum trabalho de Shakespeare?

Um hipopótamo pigmeu. Um batizado no México. Uma tatuagem gigante em Berlin. As 35 imagens que marcaram a semana no mundo.

E outra galeria… Simone Biles fazendo história. Serena Williams consolando Bianca Andreescu. A vitória do Benfica. AS IMAGENS do esporte – no capslock mesmo, pois merecem.

Música. No Spotify, Baby Smoove: um dos rappers mais celebrados do momento.

O PERONISMO QUE SEMPRE RENASCE

No início de uma tarde chuvosa, em 17 de novembro, 1972, um avião da Alitalia aterrissou no Aeroporto de Ezeiza, Buenos Aires, trazendo o ex-presidente Juan Perón e sua nova mulher, Isabelita. O coronel da reserva tornado líder popular estava fora do país desde sua deposição, em 21 de setembro, 1955. Um extenso aparato militar, dentro e fora do aeroporto, continha as dezenas de milhares de pessoas que vieram recebe-lo aos gritos de ¡Perón si, otro no!Bombas de gás foram usadas. Alguns carros pretos e um branco pararam em frente ao avião, no branco entraram marido e mulher retornados do exílio, e os veículos seguiram pela pista em fila indiana. Quando passaram pela multidão todos pararam e Perón saltou. Não lhe permitiram chegar perto demais, os soldados, mas de longe ele ergueu os dois braços, suas mãos espalmadas, e o volume dos gritos aumentou. Foi hospedado no hotel do aeroporto, ser poder sair naquela noite ou no dia seguinte. A ditadura do general Alejandro Lanusse temia o momento em que Perón e a multidão se encontrassem. O momento em que ele falasse ao povo com o sorriso sempre aberto que era sua marca. O ditador estava disposto a convocar eleições livres. Mas havia uma condição: Juan Perón não poderia ser candidato.

Não é possível contar a história do peronismo sem contar, ao mesmo tempo, a história do operariado na Argentina. Porque em toda sua existência o movimento reagiu e foi moldado por transformações desta classe em particular — não quaisquer trabalhadores, mas aqueles do chão de fábrica. A história da Argentina no século 20 é como um espelho da brasileira. Como aqui, a base inicial do movimento operário era formada por italianos anarquistas; em 1930 houve uma revolução para derrubar uma república oligárquica, e após um período de transição impôs-se uma ditadura com base trabalhista. Teve ditadores militares nos anos 1970 e 80, o governo de transição democrática não soube conter hiperinflação, e nos anos 1990 produziu reformas de base liberal. Mas o espelho não é perfeito. No Brasil, Getúlio Vargas é uma sombra do passado. O movimento criado por Juan Domingo Perón ainda paira, polarizando a política de lá como já o fazia nos anos 1940.

Desde a década de 1870, quando começaram a surgir as fábricas em Buenos Aires, para lá foram imigrantes recém-chegados da Europa, principalmente italianos. E, da Europa, estes operários trouxeram uma cultura de organização sindical, assim como a disputa ideológica entre anarquistas e socialistas por espaço entre os trabalhadores. Antes do surgimento dos comunistas, que só ocorreu após 1920, na Argentina o domínio sempre foi anarquista. O que estas três correntes da esquerda revolucionária jamais puderam imaginar é que uma mudança de base social estava para vir e praticamente as eliminaria.

Começou na década de 1930, com a Grande Depressão, uma segunda onda migratória para os grandes centros urbanos. Só que, desta vez, a gente nova a chegar não vinha de fora — vinha do interior, do campo, conforme a crise econômica apertava e o agronegócio argentino quebrava. E estes novos operários que lentamente se tornavam maioria no chão de fábrica traziam consigo uma característica muito distinta: não tinham qualquer cultura política.

Foi em novembro, 1944 quase chegando, que o general presidente Pedro Pablo Ramírez criou a Secretaria de Trabajo de la Nación, um novo ministério para lidar com a questão operária, e para ela indicou Juan Perón. O ministro tinha 48 anos, havia sido elevado a coronel fazia pouco, e demonstrara habilidade, como chefe de gabinete do ministro da guerra, na lida com comissões sindicais.

Viúvo — sua mulher Aurelia morrera de um câncer fazia cinco anos —, Perón parecia sempre de bom humor. E como ministro do trabalho criou, em poucos meses, um pacote de novas leis de proteção dando a todos direito a indenização demissional, fazendo nascer uma Justiça trabalhista, estabelecendo limites na carga horária profissional. Foi um período no qual os sindicatos vinham ganhando corpo, com a afiliação dos novos operários oriundos do campo. Não passou despercebido a ninguém que, embalado pelas reformas, o ministro tinha uma capacidade ímpar de falar a multidões. A centenas de milhares de pessoas. Nenhum outro político argentino demonstrava aquele talento.

Enquanto Perón crescia como líder, a política do país era instável. Ramírez, que sucedera a um general que não chegou a dois anos de mandato, entregou a faixa presidencial a um sucessor mal tendo completado um ano no governo. Os sindicatos que noutros tempos seguiam rígidas doutrinas políticas, agora pareciam seduzidos pelo líder populista. Naquele ambiente de instabilidade, nasceu também na classe média urbana e entre ricos o antiperonismo. Tentaram conter o coronel que eles próprios, os generais ditadores, haviam criado. Chegaram a prendê-lo — e isto só para ver a Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, tomada por uma multidão de meio milhão de pessoas clamando por Perón.

Foi eleito presidente da República com 52,8% dos votos de um pleito considerado limpo e tomou posse em 4 de junho, 1946.

A fórmula que Perón adotou, no governo, foi a de Benito Mussolini. Ampliou as reformas trabalhistas ao passo em que transformava os sindicatos em, essencialmente, braços de seu movimento político. Pôs igual esforço na Cultura e na Educação, que juntas se tornaram peças de propaganda e doutrina. Fez do casamento com a carismática namorada, Evita, um acontecimento. E quanto ela foi tomada por um câncer justamente no ano eleitoral de 1952, a segunda tragédia na vida pessoal do líder popular, o povo acompanhou o drama com angústia. Reeleito, e duas vezes viúvo, Perón ainda implantou o sufrágio universal, dando direito ao voto às mulheres. Terminou derrubado por um golpe militar, em 1955.

Há duas tradições de partidos trabalhistas no ocidente. Um dos tipos tem uma pesada organização interna, regras, se por um lado se estendem por capilares finos em toda a sociedade, por outro a burocracia para manter a estrutura os engessa. É difícil chegar ao topo e, por isso mesmo, são pouco dados a reformas. O outro tipo é o contrário, fruto de um líder carismático, organiza-se de cima para baixo. Há regras, porém são fluidas, mudam de acordo com as necessidades do comando. Têm maior capacidade de adaptação a mudanças de cenário, estes partidos. Têm, também, uma fragilidade: raramente sobrevivem à ausência do líder fundador.

O Partido Peronista, logo rebatizado Partido Judicialista, é do segundo tipo. Muito capilarizado, mas construído de cima para baixo, fluido. Com uma distinção: sobreviveu ao exílio de 17 anos do líder, assim como sobreviveu à sua morte, e a uma ditadura. Sobreviveu e sobrevive. Em grande parte o segredo está neste mito fundador — o sorriso de Perón, os direitos trabalhistas, os discursos emocionados a multidões, Evita e depois Isabelita, há um apelo emocional, um elo formado que mobiliza gerações. Entre as camadas mais pobres da população, o peronismo faz parte da identidade.

O truque do general, de permitir eleições desde que sem Perón, vazou água. Eleito um peronista, ele de presto renunciou convocando novas eleições. A chapa Perón-Perón de marido e mulher venceu com quase 62% dos votos. Mas o terceiro mandato na presidência foi interrompido por sua morte, em 1º de julho de 1974. Isabelita seria deposta por um golpe militar dois anos depois. Ela ainda está viva, embora afastada da política.

Ocorre que o mundo muda. O Partido Judicialista não morreu durante a ditadura militar. O mito o embalava. Mas a estrutura econômica do país foi deixando o chão de fábrica, conforme o setor de serviços crescia. Os sindicatos perderam força. Os peronistas não venceram a primeira eleição democrática à presidência, em 1983, mas levaram o governo de doze dos 24 estados, além de centenas de prefeituras. Naquele ano, um terço dos assentos no comitê executivo da legenda era ocupado por sindicalistas. Dez anos depois, não haveria nenhum. Pois no poder regional, os peronistas mudaram seu método. Ao invés de usar como base de atração de eleitores os sindicatos, cada vez mais enfraquecidos, passaram a usar a estrutura do Estado, de programas sociais costurados para manter sua base.

A leitura é do cientista político Steven Levitsky: ao sobreviver à ausência de Perón, o peronismo se tornou uma marca poderosa. Sem ter criado uma burocracia partidária rígida, manteve-se uma agremiação de constante embate interno pela liderança. Quem chega ao topo define o que é peronismo. Foi o que ocorreu com Carlos Saúl Menem, o primeiro peronista presidente que não tinha o sobrenome Perón. Se elegeu com o discurso nacional populista do movimento mas, em julho de 1989, o mundo se virava para uma agenda econômica distinta. Liberal. Governou por dez anos fazendo reformas de mercado, estabilizando a economia — para depois vê-la se desmontar novamente.

O Peronismo é o que seu líder do momento deseja.

Governador da província de Santa Cruz, Néstor Carlos Kirchner chegou à presidência para ser em todo distinto de Menem. Estatizou empresas, ampliou a presença do governo na sociedade. E foi sucedido, após sua morte, pela própria mulher. A fórmula peronista. De 1983 para cá, um período de 36 anos, o Partido Judicialista governou 22.

E deve voltar ao poder este ano.

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2. Dezeen: 12 projetos de casas estreitas, para aproveitar o máximo os espaços.

3. Yahoo: Gatos gêmeos exibem o contraste dos seus olhos azuis e verdes.

4. G1: Pesquisadores recriam rosto da múmia egípcia de mais de 2,5 mil anos.

5. BBC News: Panda-gigante dá à luz gêmeos ‘raros’ em zoológico na Bélgica.

Fonte: @Meio

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